








Publicada em 03/12/2009
Base: Rio de Janeiro
SNEA aposta na luta de classes quando não aceita argumentos dos trabalhadores nas negociações
Por Cláudia Fonseca
Sindicato Nacional dos Aeroviários (SNA) convoca trabalhadores para assembleia itinerante, no dia 9 de dezembro, para definir greve às vésperas do natal, nos dias 23 e 24. Os dirigentes dos sindicatos cutistas do setor não aceitaram o resultado da última rodada de negociação com o Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (SNEA), no dia 2. Durante a reunião, o representante do patronal Odilon Junqueira manteve a proposta de reposição integral da inflação em todos os itens econômicos, que corresponde a aproximadamente 4,5%. A reivindicação dos aeroviários e aeronautas é de 10%.
Os números favorecem as categorias. No último ano, duas das maiores empresas lucraram sozinhas 1 bilhão de dólares, houve aumento de 18% na venda das passagens aéreas e crescimento de 42% no setor doméstico. A partir dessas informações, aceitar reposição salarial de apenas 4,5% seria dispensar uma oportunidade, segundo o assessor econômico do SNA Jardel Leal. “As empresas não podem mais achar que os trabalhadores não vão lutar por suas reivindicações. Se eles não fizerem isso agora, no momento em que o setor está no auge, vão fazer quando? O país cresce e os profissionais da aviação não podem renunciar sua participação no desenvolvimento da sociedade”.
Categorias empobrecem
Segundo Jardel, o poder aquisitivo dos aeronautas e aeroviários está muito abaixo do de 15 anos atrás. O ano de 2008 representa apenas 88,7% do valor recebido pelos trabalhadores em 1995. Quem tivesse um salário de R$ 1000,00 naquela época, hoje receberia apenas R$ 887,00. Houve uma perda aquisitiva de 11,31%. Os salários deveriam ser corrigidos em 12,76 % para recuperar o poder de compra que a categoria possuía em 95. Os profissionais estão empobrecendo.
Outro dado preocupante é a comparação entre o reajuste da inflação e a do salário dos trabalhadores. Entre 2002 e 2008, houve um acúmulo inflação de 45,08% pelo INPC. Já na aviação, a reposição salarial foi de 44,22% no mesmo período. A perda do trabalhador foi de 0,6%. "Enquanto a maioria das categorias de outros setores conquistou ganho real, os profissionais da aviação amargaram perdas econômicas", declara Cláudio Toledo, assessor econômico dos aeronautas. O oposto acontece com as empresas. Em 1995, transportavam 38,4 bilhões de passageiros pagos por quilometro. Em 2008, esse número passou para 68,9 bilhões. Houve um crescimento de 79,3%. “O setor aéreo não quer acompanhar os avanços do mercado, que busca proporcionar melhores condições econômicas para os trabalhadores”, declara Jardel.
“Os trabalhadores já estão satisfeitos com seus salários”
As exposições feitas por Jardel e Cláudio incomodaram Odilon Junqueira, que sem argumentos, questionou a presença dos economistas e afirmou que é um privilégio para qualquer pessoa trabalhar em companhias como a TAM. “Quando anunciamos novas vagas, temos filas na porta”. Segundo ele, os trabalhadores já estão satisfeitos com seus salários, o que foi contestado pelos dirigentes sindicais. “Se fazem fila, é por necessidade. Mas não querem ficar, querem sair. Eles estão insatisfeitos com as condições de trabalho, na primeira oportunidade que tiverem, vão abandonar as empresas”, declarou um dos diretores. Para comprovar, o SNA vai realizar uma pesquisa com a categoria, em que a identificação não será necessária.
“Como o trabalhador pode estar satisfeito? O que você acha que eles vão pensar com a declaração do SNEA de que o bom desempenho do setor não dá direito a um reajuste com ganho real? Nessas condições, será que há futuro para esse profissional?”, questiona Jardel. Cláudio vai além: “As empresas falam como se fizessem uma caridade para seus funcionários. O mercado dobrou, e a responsabilidade pelo desenvolvimento do setor, que cresceu mais de 100%, também é deles”.
Manifestação em Guarulhos
Mas mostrar que as categorias estão firmes na reivindicação de um ganho real, uma manifestação foi realizada no Aeroporto Internacional de Guarulhos, no dia 1 de dezembro, com a participação de mais de 300 pessoas. “Estamos dispostos a aumentar a mobilização de todos. Esse é apenas o começo, os trabalhadores não vão aceitar a proposta de vocês”, afirmou o presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores em Aviação Civil (FENTAC) Celso Klafke.
Os sindicatos insistem na participação das categorias para definir se suas condições de trabalho vão continuar como estão, ou se haverá mudanças. “Os aeroviários não estão satisfeitos com seus salários. Queremos ouvir isso da boca deles para organizar uma greve. Melhorar a qualidade de vida só depende dos próprios empregados”, declara Selma Balbino, secretária geral do SNA. Para os dirigentes sindicais, as empresas sugerem o embate de classe quando desqualificam todos os dados apresentados durante as negociações e se recusam a oferecer ganho real. Para eles, se não é possível o diálogo, mobilizar os trabalhadores por melhores condições de salário é a única solução.